Líder dos “avestruzes”, Brasil vira sinônimo de negação da crise em meio a devastação do coronavírus

A propagação do novo coronavírus se transformou em uma crise global de saúde desde o início de 2020. Enquanto países do mundo inteiro lidavam com uma pandemia que até o começo de maio havia deixado mais de 250 mil mortos, o Brasil vê sua reputação se afundar enquanto se consolida como símbolo de atuação equivocada no combate ao Covid-19.

A imagem mostrada pela cobertura da imprensa internacional no primeiro semestre é de um país que mergulha em crises e parece ignorar o problema enquanto a doença começava a devastar sua população.

Ilustração publicada pela revista The Economist

À medida que o país via crescer rapidamente o número de vítimas da doença, e o jornal americano The Washington Post publicava em sua capa uma foto de centenas de covas sendo cavadas em um cemitério de São Paulo, o Brasil virou o líder da “Aliança do Avestruz”, segundo uma reportagem publicada pelo jornal econômico Financial Times. 

O termo foi criado pelo professor Oliver Stuenkel, da FGV. É uma referência ao mito de que avestruzes enfiam a cabeça na areia para se esconder de problemas e fugir do perigo. O país finge que não há nada de errado, e o governo de Jair Bolsonaro passou a ser visto como o principal negacionista da crise global de saúde causada pela pandemia.

Enquanto a maioria dos líderes do mundo tomou ações drásticas para lutar contra a propagação do coronavírus, dizia a reportagem, Bolsonaro continuava minimizando a ameaça à saúde dos brasileiros.

O editorial da revista científica The Lancet, uma das mais importantes na área médica, resumiu a reputação do governo brasileiro nessa semana ao chamar Bolsonaro de “a maior ameaça à resposta do Brasil à Covid-19”. A publicação sugere que ele mude sua conduta ou seja “o próximo a sair”.

Um estudo de imagem e reputação do país realizado pelo escritório de consultoria Curado & associados em sete veículos da imprensa internacional comprovou essa imagem negativa da gestão da pandemia no Brasil.

A mídia estrangeira deu grande visibilidade a declarações polêmicas do presidente e à falha na entrega de soluções para a crise. Além disso, houve registro internacional sobre o crescimento da insatisfação da população, com uma série de panelaços contra o governo em várias partes do país. 

Isso tudo levou Bolsonaro a ganhar destaque na mídia internacional como o líder mais ineficiente do mundo no combate ao novo coronavírus. A avaliação foi feita pelo presidente da agência de risco Eurasia Group, Ian Bremmer

“O movimento de negação de coronavírus oficialmente tem um líder e é o presidente brasileiro Jair Bolsonaro”, resumiu uma reportagem da revista americana The Atlantic. “Ele descreveu a doença como uma ‘gripezinha’, um insignificante ‘resfriado’. Ele acusou a mídia de fabricar ‘histeria’”, disse a publicação. 

Essa imagem negativa se espalhou nos principais veículos da imprensa internacional. “Nenhum líder mundial foi mais ativo em subestimar a ameaça do coronavírus do que o presidente brasileiro”, criticou a revista The New Yorker. “Especialistas médicos temem que Bolsonaro possa estar acelerando a marcha do país em direção a uma crise devastadora da saúde pública”, destacou The Guardian. O jornal americano The Washington Post foi além e publicou artigo contra o governo brasileiro. “Bolsonaro está colocando o Brasil em perigo e precisa sofrer impeachment”, disse.

Não fossem suficientes os problemas ligados à crise de saúde e a negação dos riscos da pandemia pelo governo, a imprensa internacional também destacou que o Brasil vivia uma situação pior do que a do resto do mundo por conta de problemas políticos com a demissão dos ministros da saúde, Luiz Henrique Mandetta, e da Justiça, Sergio Moro. Como resumiu a agência de notícias internacional Reuters, o país conseguiu a proeza de ter “uma crise política no meio de uma crise econômica durante a pandemia de coronavírus”. 

A imagem do Brasil de Bolsonaro na China: Um país pouco sério e cópia de Trump nos EUA

O calor do noticiário sobre a pandemia de Covid-19 e as crises diplomáticas entre Brasil e China acabou ofuscando um dos pontos mais interessantes de uma entrevista recente com especialistas em China publicada pela BBC News Brasil.

Enquanto o foco da reportagem ficou sobre os assuntos obviamente importantes no momento, como a geopolítica global e as relações entre os dois países, foi possível entender melhor como a China vê o Brasil de Jair Bolsonaro –tema que é central para a minha pesquisa acadêmica sobre percepções externas a respeito do Brasil.

O Brasil é um país pouco conhecido na China, e o governo atual é visto como uma cópia do que Donald Trump faz nos Estados Unidos, mas com menos seriedade

A avaliação ficou evidente na entrevista que fiz com Júlia Rosa, Jordy Pasa e Lívia Machado Costa, cofundadores da plataforma Shūmiàn, que produz conteúdo analítico em português e em espanhol sobre a China. A reportagem completa foi publicada na BBC News Brasil com o título: “Aderir a discurso anti-China na pandemia põe Brasil em posição vulnerável, veem analistas”

Selecionei abaixo alguns trechos da entrevista com os três em que falam mais especificamente sobre esta questão da percepção chinesa a respeito do Brasil.

Júlia Rosa – Na época das eleições surgiu a repetição do discurso do ‘Trump dos trópicos’, mas se a China é pouco conhecida no Brasil pelo cidadão médio, o Brasil é igualmente pouco conhecido na China. Os dois países se baseiam muito nos estereótipos existentes e existe muito ainda a ser percorrido no âmbito de conhecimento de história, política e cultura chinesa –e brasileira, lá. No âmbito de estudos China-América Latina, houve uma preocupação com possível hostilidade do governo, já que o Brasil é um parceiro comercial importante e uma porta de entrada para a região como um todo. Acredito que a tranquilidade ao governo chinês se deu pela antiga e consolidada relação com o agronegócio brasileiro, que tem grande influência no Congresso e no Planalto.   

Jordy Pasa – Por trás das hostilidades entre chineses e estadunidenses há um contexto maior de disputa por hegemonia global, seja ela militar, econômica ou tecnológica, que obviamente não existe quando olhamos para o caso brasileiro. Não somos lidos com o mesmo nível de seriedade por Pequim, o que, a depender da situação, pode funcionar contra ou a nosso favor. Por um lado, retaliações mais graves são pouco prováveis, se engajar em um conflito com o Brasil está muito longe do radar chinês. Por outro, somos alvos mais vulneráveis, e logo menos capazes de se defender caso o atual desconforto entre os dois países se agrave.

Lívia Machado Costa – O atual posicionamento diplomático brasileiro em relação à China tem sido, por ora, subserviente à postura dos Estados Unidos, ou seja, instável e aquém do histórico positivo das relações sino-brasileiras e do potencial do Brasil no Sul global. No entanto, em parte devido a essa mudança de trajetória, há uma ascensão da paradiplomacia brasileira em campo, com governos estaduais abrindo escritórios comerciais em cidades estratégicas na China e criando trocas mais positivas entre as duas nações. 

Júlia Rosa – Acho fascinante como há uma construção de linguagem e resposta igual à de Trump e apoiadores. As frases, os memes e até as hashtags muitas vezes são apenas versões traduzidas do que já estava circulando na internet estadunidense. É um reflexo muito significativo do nosso alinhamento ideológico enquanto governo e de certos grupos da sociedade.

Lívia Machado Costa – É alarmante que um país como o Brasil esteja fazendo declarações desse nível à China, e o corpo diplomático chinês tem sido vocal em relação a isso. Contudo, a postura brasileira parece ser recebida como uma falta de agenda própria em relação à China, e mais como um satélite dos Estados Unidos. Quem perde somos nós, abdicando por falta de assertividade de nosso potencial no Sul global e deterioramento da parceria estratégica com a China.

Pergunta – Os atritos diplomáticos entre o governo Bolsonaro e a China chegam a repercutir de alguma forma na China?

Júlia Rosa – Não de forma significativa ou para além do corpo diplomático ou governamental. Primeiro que o país ainda está muito centrado em si e na sua recuperação, luto e toda a bagagem que veio desses dois últimos meses. Em segundo lugar, o discurso do deputado e esses atritos são um “copia e cola” do que está sendo dito por Trump e seus apoiadores. No fim das contas, as reações acabam sendo direcionadas ao governo estadunidense. Nesse quesito, a repercussão é majoritariamente negativa. A diferença é que os EUA é um parceiro muito mais importante para a China do que o Brasil. Então, por enquanto estamos dando sorte que não somos tão populares.

Lívia Machado Costa – Os atritos não ganham força entre o público chinês, apesar de as recentes declarações do ministro Weintraub terem sido tratadas pela mídia chinesa. Na internet chinesa, as menções ao Brasil estão mais relacionadas à resposta ao Covid-19, com destaque às assimetrias entre governos estaduais e federal e as declarações de Bolsonaro dizendo se tratar apenas de uma “gripezinha”. O “Trump dos trópicos” como Bolsonaro é descrito na China, tem sido mencionado como um agente passivo durante a pandemia. Surpreende o público chinês um chefe de Estado não tratar a emergência do Covid-19 com maior assertividade.