A corrupção varrida para debaixo do tapete

Coluna publicada no site da revista Problemas Brasileiros em 20 de outubro de 2020 fala sobre o fim da Operação Lava Jato e o argumento do governo sobre o “fim da corrupção”.

“A ‘morte’ da Operação Lava Jato, anunciada em tom de brincadeira pelo presidente Jair Bolsonaro em outubro, não vai representar uma transformação positiva no conceito que o resto do mundo tem a respeito do Brasil. Em vez de representar a ausência de desvios e ilícitos no governo, como argumentou o presidente, o fim da maior ação contra a corrupção da história do País vai ser vista, do exterior, como a volta daquela imagem em que a impunidade domina.”

Um Brasil – Pandemia e nacionalismo

Entrevista em vídeo com o pesquisador César Jiménez-Martínez.

“A expectativa é que o mundo pós-pandemia seja mais nacionalista como um reflexo do padrão adotado durante o período de combate ao covid-19. Essa fase está sendo marcada mais pela competição do que pela cooperação internacional. O assunto foi debatido no UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, por César Jiménez Martínez, professor do Global Media and Communications at Cardiff University School of Journalism, Media and Culture.”

“O [novo] coronavírus é uma crise global, mundial, mas a resposta da crise é de maioria nacional, de governo nacional. Acho que o interessante da crise atual é mostrar a importância da ideia de nação nas nossas vidas. É provável que o mundo pós-pandemia seja muito mais fechado, mais nacionalista”, diz.

Martinez destaca, entretanto, que o nacionalismo é uma forma de discurso que pode ter diferentes ideologias, mais global e aberto ao mundo ou mais protecionista. O especialista também fala ao jornalista Daniel Buarque sobre o papel da mídia na pandemia, além de traçar um paralelo entre a imagem negativa do Brasil no cenário internacional, no momento, com os protestos que ocorreram em 2013.

Pandemia, saúde pública e desigualdade

Entrevista realizada para o Canal Um Brasil com Gonzalo Vecina Neto. Médico sanitarista, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e colunista do jornal o Estado de São Paulo.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, enquanto o Brasil se consolida como epicentro da emergência global, o sistema único de saúde ganha uma nova relevância para o país, reforçando a importância do Estado na gestão da saúde e do bem estar social. E é disso que trata esta edição do Um Brasil.

Gonzalo Vecina Neto é professor do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e da fundação getulio vargas. Também foi secretário municipal da Saúde na capital paulista.

A Cara do Brasil – Um país com a cabeça na areia

A tentativa do governo de Jair Bolsonaro de ignorar a pandemia do novo coronavírus já tinha levado o Brasil a ser chamado de um líder da “Aliança do Avestruz”. O termo fazia referência ao mito de que avestruzes enfiam a cabeça na areia para se esconder de problemas e fugir do perigo. Com a decisão de esconder dados oficiais sobre contaminações e mortes no país, o governo parece querer que o Brasil inteiro também mergulhe na ignorância, transformando a todos em avestruzes.

Este foi um dos focos do comentário do domingo (07/6) no quadro A Cara do Brasil, na rádio CBN.

O governo Bolsonaro parece jogar contra si mesmo e contra o país no momento em que escolhe não ser transparente em relação à divulgação dos dados do novo coronavírus. Esconder os dados não vai fazer a epidemia no país acabar e pode causar danos muito graves, como o aumento no número de casos da doença e a exclusão do país dos esforços globais contra o coronavírus.

Também é relevante e negativa a postura do Brasil de seguir a crítica dos Estados Unidos em relação à OMS. O alinhamento ao governo Trump é arriscado em um ano de eleição complicado nos Estados Unidos, que pode levar ao poder um governo diferente e menos favorável ao Brasil de Bolsonaro. Isso indica uma falta de política de Estado no Brasil.

Por outro lado, em sua coluna na Folha desta semana, o pesquisador Mathias Alencastro fala sobre esta aposta do Brasil no alinhamento com Trump, acreditando que o presidente americano pode ser reeleito e impor um regime ainda menos liberal nos EUA, o que poderia favorecer o acirramento político do governo brasileiro.

“Quando o cidadão do Wisconsin ou da Pensilvânia decidir o seu voto, ele também estará arbitrando o destino da democracia brasileira”, diz.

Pandemia e democracia

O trecho abaixo é parte da reportagem “Estudo indica que ditaduras foram mais eficientes do que democracias no combate inicial à Covid-19”, que escrevi e que foi publicada pelo UOL na sexta-feira (22). Foi escrito após assistir a um seminário apresentado pelo pesquisador Gabriel Cepaluni e de uma longa entrevista realizada com ele em seguida.

A propagação do novo coronavírus pelo mundo revelou um cenário controverso para cientistas políticos acostumados a defender as vantagens de regimes democráticos sobre qualquer outra alternativa de governo. Segundo um estudo que avaliou as diferentes respostas aos cem primeiros dias da pandemia em mais de uma centena de países por todo o planeta, regimes autoritários se mostraram mais bem sucedidos do que regimes democráticos no combate inicial à doença.

Apesar de ser uma avaliação surpreendente, a pesquisa revela que, quando o remédio para uma pandemia é o cerceamento de liberdades, um regime político já acostumado a controlar seus cidadãos vai ser mais bem sucedido do que um regime que oferece liberdade à população, explicou o pesquisador Gabriel Cepaluni, professor da Unesp de Franca, em entrevista ao UOL Notícias.

“O resultado principal do estudo é que ditaduras estão sendo mais capazes de reduzir as mortes mais rapidamente do que as democracias”, disse Cepaluni. “Uma característica essencial da ditadura em relação a democracias é que as liberdades civis são coibidas. Nas democracias isso não acontece. Temos liberdade civil, direito à manifestação, direito a formar grupos políticos e várias outras coisas. E uma das principais medidas de combate à pandemia é o isolamento social, que é coibir liberdades civis. Então para um regime democrático que nunca coibiu liberdades civis, isso é uma novidade”, avaliou.

A avaliação foi publicada no mês passado no estudo acadêmico “Political Regimes and Deaths in the Early Stages of the COVID-19 Pandemic” [Regimes políticos e mortes nos primeiros estágios da pandemia de Covid-19]. Ele realizado por Cepaluni em parceria com pesquisadores Michael T. Dorsch e Réka Branyiczki, ambos da Central European University, de Budapeste.

A ideia central é que países com instituições políticas mais democráticas registraram mortes em uma escala per capita maior, e mais rapidamente, do que países menos democráticos.

Pandemia e desigualdade: ‘Se livrar do governo talvez não seja suficiente’

Impactos econômicos por vezes têm disputado a atenção política (especialmente no Brasil) na discussão sobre efeitos imediatos e futuros da pandemia do novo coronavírus. Discute-se a recessão causada pelo confinamento, o empobrecimento da população e até o risco de convulsão social por esses motivos. Para o futuro, fala-se sobre a possível recuperação das finanças, os efeitos políticos da crise retração e, um dos pontos mais interessantes, como isso pode afetar a desigualdade no mundo e no Brasil.

Um dos principais estudiosos do assunto é o historiador Walter Scheidel, professor da Universidade Stanford, nos Estados Unidos — que entrevistei para a BBC News Brasil no início de abril, e que também falou com a Folha nesta semana.

BBC Brasil – Coronavírus: Autor americano aponta potencial da covid-19 para reduzir desigualdade no mundo

Folha – Covid-19 aumentará desigualdade em hora muito infeliz para Brasil, diz historiador

Ele é autor do livro The Great Leveler: Violence and the History of Inequality from the Stone Age to the Twenty-First Century, obra que traça a história da desigualdade social no mundo e analisa as rupturas levaram a sua diminuição. O livro vai ser lançado agora no Brasil pela editora Zahar com o título “Violência e a história da desigualdade”.

A avaliação dele é bem interessante. Por um lado, pandemias ao longo da história tiveram o poder de reduzir desigualdades, mas a Covid-19 não deve ter este efeito imediatamente. Por outro lado, a crise gerada pela propagação do vírus pode mudar o tom da política nacional, criando uma postura mais “progressista” e de esquerda –o oposto do que há hoje em países como o Brasil e os EUA.

Crises muito sérias podem afetar preferências políticas e escolhas políticas. Então, se este evento for severo o suficiente, ele pode alterar as preferências do eleitorado de forma que se mova para uma defesa de um estado de bem-estar social mais forte, impostos mais altos para pagar pelos déficits causados por pacotes de estímulo, mais assistência médica, maior proteção aos trabalhadores”, avaliou na conversa comigo.

Na entrevista publicada agora pela Folha, entretanto, ele é mais pessimista ao analisar a situação do Brasil, e indica que o estrago causado pela pandemia é tão grave que talvez uma guinada para uma visão mais social da economia não seja suficiente para evitar um aumento da desigualdade no país.

O momento para o Brasil e para a América Latina é muito infeliz. A primeira década deste século foi muito positiva, e não apenas para o Brasil. Houve um boom econômico, mudanças políticas que levaram a uma maior distribuição de renda e políticas para a educação. Muitas coisas juntas ocorreram no momento de um boom de demanda da China por commodities.

Isso ajudou a reduzir as desigualdades, mas os problemas começaram a aparecer cedo na década atual, e a tendência de equalização social parou repentinamente. A partir daí houve uma mudança política radical que não chega a surpreender se levarmos em conta o quão profundamente arraigado está o conservadorismo nessas sociedades. Isso talvez fosse até inevitável. E tudo talvez fique ainda pior com a crise em andamento agora.

Eu ficaria bastante pessimista em relação às perspectivas de o Brasil conseguir retomar uma trajetória de diminuição de suas desigualdades como o fez há 10 ou 15 anos. A não ser que, como disse, as coisas fiquem tão ruins que a pressão para mudanças seja muito grande. E apenas se livrar do atual governo talvez não seja o suficiente. Teria de haver um descontentamento muito grande entre os pobres e mesmo na classe média para que algo assim pudesse ocorrer.”

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Abaixo, selecionei alguns trechos da entrevista publicada na BBC News Brasil, em que Scheidel fala sobre possíveis impactos

BBC News Brasil – O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, está indo na contramão de outros políticos do mundo e rejeitando políticas duras de confinamento por conta dos efeitos negativos na economia. Acha que este comportamento pode ter relação com uma tentativa de evitar este tipo de impacto da pandemia na política?

Walter Scheidel – Acho que sim. Vemos isso todas as vezes ao longo da história. A elite entrincheirada não tem interesse nesse tipo de mudança, então sempre há resistência a mudanças trazidas por reformas progressistas. O resultado é determinado em ampla medida por quem vence, por que lado dessa disputa se coloca com mais força. Houve pessoas na Idade Média que tentaram fazer os pobres trabalharem pelos mesmos salários que recebiam antes, apesar de haver apenas metade dos trabalhadores ativos de antes, numa tentativa de coagir as pessoas a continuar no mesmo status quo, o que não era possível. Em outros momentos, isso foi possível, como em situações do feudalismo.

Há diferentes tipos de resposta para este tipo de crise que enfrentamos agora, e vai depender muito do tipo de país em que se vive. É possível que as forças reacionárias do status quo sejam tão fortes que, ao fim da crise, a vida volte ao mesmo sistema que havia antes, mas com mais polarização e desigualdade, o que pode criar instabilidade no longo prazo. Por outro lado, podemos pensar que o outro lado sai com vantagem, e vemos uma mudança de trajetória. Isso está em aberto atualmente, especialmente em países como os Estados Unidos e o Brasil, onde já há muita desigualdade e os interesses entrincheirados são muito poderosos.

Se estivéssemos falando da Suécia, a diferença não seria tão grande, já que já existe um estado de bem-estar social, que deve dar ainda mais apoio à população. Mas em países como os nossos, está tudo muito em aberto e não temos como saber que lado vai vencer. Ainda assim, acredito que as forças progressistas agora têm uma chance maior de serem bem-sucedidas enquanto a crise piora, pois se torna mais fácil eles apresentarem seus argumentos.

BBC News Brasil – O senhor fala sobre os impactos de pandemias em desigualdades, e falou sobre as mudanças de prioridades por conta da propagação do coronavírus. Aqui no Brasil há uma expectativa de que a população mais pobre sofra mais com os efeitos da doença, por conta de uma desigualdade já muito grande. Acha que esse tipo de situação pode ter impactos políticos e econômicos no país?

Walter Scheidel – No curto prazo, sem dúvida isso vai aumentar a polarização, pois vai fazer com que as pessoas se sintam ainda mais alienadas por verem que não são parte do sistema. Se nada mudar, isso pode desestabilizar a sociedade além do que já vemos no Brasil atualmente. Isso ainda pode ser usado por políticos para acelerar mudanças para um lado ou o outro do espectro político dessa polarização. Mas acho que há um potencial para um reforço a políticas progressistas, muito mais do que havia um mês atrás.

BBC Brasil News – Ainda assim, seu livro menciona a América Latina do início do século 21 como um dos principais candidatos para uma equalização sem violência. Olhando para esse movimento, quão importante acha que ele foi e por que acha que ele não foi mais bem sucedido no sentido de diminuir as desigualdades?

Walter Scheidel – É uma questão muito difícil, e tem muita gente tentando entender esse movimento. Aparentemente, foi um progresso muito limitado a um período de cerca de uma década em que o progresso foi alcançado por uma combinação rara de circunstâncias: havia mudança política, havia o resultado de reformas aprovadas nos anos 1990, havia demanda por commodities na China e em outras economias emergentes, havia o resultado de investimentos em educação feitos nos anos 1990. Foi a culminação de fatores que levaram a esse resultado, mas não está claro o quanto esses resultados eram sustentáveis. Além disso, sempre houve forças de reação presentes, que esperavam suas chances de se impor contra esses movimentos, o que vemos claramente no Brasil atualmente, mas também em outros países. Houve uma reação contra isso. Parece que as condições que favoreciam o movimento por menor desigualdade se enfraqueceram, e as forças de reação conseguiram ganhar mais força para lutar contra ela.