Imagem de Bolsonaro é negativa mesmo na imprensa internacional ‘de direita’

Pressionado por uma evidente piora na reputação do Brasil por conta da propagação do novo coronavírus no país, o presidente Jair Bolsonaro disse que sua uma imagem no exterior é ruim porque a imprensa mundial é de “esquerda”.

O argumento é raso, não se sustenta, e vem desde a época da eleição dele. À época, veículos claramente conservadores da imprensa estrangeira, como a revista The Economist e o jornal Financial Times, ambos com forte tendência liberal na economia, foram acusados de serem “comunistas” por seus apoiadores. As duas publicações continuam críticas ao governo brasileiro –e continuam não sendo nada “de esquerda”.

Além disso, Bolsonaro ignora que sua imagem negativa no resto do mundo se constrói desde a eleição e se fortaleceu especialmente com o noticiário ligado à destruição da Amazônia no ano passado. Isso com espaço em praticamente toda a imprensa internacional –de esquerda, de centro e de direita. O mesmo acontece agora, quando o governo nega a gravidade da pandemia enquanto o Brasil se consolida como “epicentro” do contágio de Covid-19.

Uma rápida busca por veículos internacionais “de direita” deixa bem evidente que a imagem negativa do presidente não se deve a uma tendência esquerdista. É o jornalismo bem feito e ligado a fatos que tem exposto uma má reputação do Brasil.

Um exemplo claro é o Wall Street Journal, publicação que pode ser vista como a voz do mercado financeiro nos Estados Unidos (e no mundo), e que é um dos veículos “de direita” que tem dado espaço a uma imagem negativa do Brasil sob Bolsonaro.

O jornal se consolidou desde antes da eleição de 2018 como a publicação internacional mais visivelmente favorável a Bolsonaro, e até publicou um artigo de Mary Anastasia O’Grady no último dia 17 defendendo que Bolsonaro “está certo” em querer que o Brasil deixe de lado a quarentena e volte ao trabalho. Ainda assim, a cobertura jornalística da publicação tem dado espaço a um noticiário mais negativo sobre o Brasil e o presidente.

No dia 19, por exemplo, publicou uma longa reportagem sobre os efeitos do novo coronavírus em enfermeiros do Brasil, e deu espaço a críticas a Bolsonaro, alegando que ele “minimiza a contaminação”.

“Com a doença se espalhando em vilarejos indígenas na Amazônia e em favelas nas cidades brasileiras, alguns governadores e prefeitos adotaram medidas de distanciamento social. Ainda assim, as restrições do Brasil são geralmente mais flexíveis do que as medidas de bloqueio impostas em muitos países europeus e asiáticos e têm um oponente influente: o presidente Jair Bolsonaro, que quer manter a nona maior economia do mundo operando normalmente”, diz o WSJ.

“A posição do presidente sobre a pandemia o colocou em conflito direto com especialistas em doenças infecciosas, incluindo pessoas de seu próprio ministério da saúde e vários governadores”, continua.

“A confusão no Brasil está levando um número crescente de pessoas a ir trabalhar e deixar suas casas, mesmo em comunidades onde os líderes locais têm defendido medidas de distanciamento social.”

O jornal noticiou o bloqueio imposto pelos EUA a viajantes do Brasil, por exemplo.

“O número de casos confirmados de Covid-19 no Brasil e de mortes por doenças causadas pelo novo coronavírus está aumentando rapidamente. O país sul-americano agora é o segundo no mundo em casos confirmados, logo atrás dos EUA, com 347.398 em 23 de maio. Muitos especialistas dizem que o número real é provavelmente muito maior.”

Além da pandemia, o WSJ também noticiou a investigação sobre a possível tentativa de Bolsonaro de interferir na Polícia Federal.

“A Suprema Corte do Brasil causou impacto no presidente Jair Bolsonaro na sexta-feira ao permitir a exibição de um vídeo de uma reunião do gabinete na qual ele parece pedir ao seu então ministro da Justiça que interfira nas investigações criminais de familiares”, diz o jornal.

A rede de TV americana Fox News, veiculo de clara tendência conservadora e frequentemente associada à defesa do presidente Donald Trump, também tem criticado Bolsonaro.

O site da Fox News publicou uma reportagem sobre o editorial da revista de medicina The Lancet, que chamou Bolsonaro de “maior ameaça” ao Brasil por conta da pandemia.

“Bolsonaro subestimou repetidamente a propagação do vírus –que matou mais de 270.000 pessoas em todo o mundo. Recentemente, um jornalista perguntou a ele sobre a rápida disseminação do coronavírus no Brasil, à qual o presidente de extrema direita respondeu: ‘E daí? O que você quer que eu faça?'”, diz a Fox News.

Na semana passada, em uma nova crítica, a rede de TV conservadora dos EUA tratou da postura de Bolsonaro, que ignorou políticas de isolamento social.

“O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, mais uma vez desconsiderou os conselhos de saúde pública em meio à pandemia de coronavírus no domingo para tirar fotos com os manifestantes, enquanto a maior cidade do país em São Paulo luta para manter seu sistema de saúde funcionando com hospitais públicos a 90% da capacidade”, disse.

“Bolsonaro, que recebeu críticas generalizadas no país e no exterior por instar os brasileiros a voltar ao trabalho durante a pandemia, se misturou com apoiadores em uma multidão em Brasília, capital nacional, no domingo. Usando uma máscara e ladeado por ministros e seguranças, ele posou para fotos com pelo menos três crianças pequenas.”

A Fox News também continua destacando o vídeo em que o filho do presidente diz que o exame de Bolsonaro havia dado positivo para o coronavírus –o que o governo negou em seguida.

No Reino Unido, o jornal The Daily Telegraph, que também tem uma linha editorial mais à “direita” também adotou uma postura crítica e mostra uma imagem negativa do governo de Bolsonaro.

“Entre implosão política e um vírus fora de controle, Bolsonaro enfrenta a perspectiva de se tornar conhecido como o homem que quebrou o Brasil”, diz uma reportagem recente.

Segundo o jornal britânico, Bolsonaro adotou um discurso que é “uma mistura de negação e hostilidade. Em um discurso irado, o presidente criticou a ‘histeria’ da imprensa por espalhar o medo e descartou o vírus como uma ‘gripezinha'”.

Esses são só alguns exemplos de veículos de imprensa internacional que claramente não estão alinhados a nenhuma “esquerda”, mas que têm uma linha editorial que crítica o governo brasileiro e mostra uma imagem negativa do país. O problema não está nos mensageiros, mas na mensagem que o presidente está passando ao minimizar a pandemia, rejeitar políticas de isolamento social, não demonstrar apego ao conhecimento, ignorar a ciência e deixar adotar uma postura séria de combate à pandemia. Isso é o que afeta de verdade a imagem internacional do Brasil.

Líder dos “avestruzes”, Brasil vira sinônimo de negação da crise em meio a devastação do coronavírus

A propagação do novo coronavírus se transformou em uma crise global de saúde desde o início de 2020. Enquanto países do mundo inteiro lidavam com uma pandemia que até o começo de maio havia deixado mais de 250 mil mortos, o Brasil vê sua reputação se afundar enquanto se consolida como símbolo de atuação equivocada no combate ao Covid-19.

A imagem mostrada pela cobertura da imprensa internacional no primeiro semestre é de um país que mergulha em crises e parece ignorar o problema enquanto a doença começava a devastar sua população.

Ilustração publicada pela revista The Economist

À medida que o país via crescer rapidamente o número de vítimas da doença, e o jornal americano The Washington Post publicava em sua capa uma foto de centenas de covas sendo cavadas em um cemitério de São Paulo, o Brasil virou o líder da “Aliança do Avestruz”, segundo uma reportagem publicada pelo jornal econômico Financial Times. 

O termo foi criado pelo professor Oliver Stuenkel, da FGV. É uma referência ao mito de que avestruzes enfiam a cabeça na areia para se esconder de problemas e fugir do perigo. O país finge que não há nada de errado, e o governo de Jair Bolsonaro passou a ser visto como o principal negacionista da crise global de saúde causada pela pandemia.

Enquanto a maioria dos líderes do mundo tomou ações drásticas para lutar contra a propagação do coronavírus, dizia a reportagem, Bolsonaro continuava minimizando a ameaça à saúde dos brasileiros.

O editorial da revista científica The Lancet, uma das mais importantes na área médica, resumiu a reputação do governo brasileiro nessa semana ao chamar Bolsonaro de “a maior ameaça à resposta do Brasil à Covid-19”. A publicação sugere que ele mude sua conduta ou seja “o próximo a sair”.

Um estudo de imagem e reputação do país realizado pelo escritório de consultoria Curado & associados em sete veículos da imprensa internacional comprovou essa imagem negativa da gestão da pandemia no Brasil.

A mídia estrangeira deu grande visibilidade a declarações polêmicas do presidente e à falha na entrega de soluções para a crise. Além disso, houve registro internacional sobre o crescimento da insatisfação da população, com uma série de panelaços contra o governo em várias partes do país. 

Isso tudo levou Bolsonaro a ganhar destaque na mídia internacional como o líder mais ineficiente do mundo no combate ao novo coronavírus. A avaliação foi feita pelo presidente da agência de risco Eurasia Group, Ian Bremmer

“O movimento de negação de coronavírus oficialmente tem um líder e é o presidente brasileiro Jair Bolsonaro”, resumiu uma reportagem da revista americana The Atlantic. “Ele descreveu a doença como uma ‘gripezinha’, um insignificante ‘resfriado’. Ele acusou a mídia de fabricar ‘histeria’”, disse a publicação. 

Essa imagem negativa se espalhou nos principais veículos da imprensa internacional. “Nenhum líder mundial foi mais ativo em subestimar a ameaça do coronavírus do que o presidente brasileiro”, criticou a revista The New Yorker. “Especialistas médicos temem que Bolsonaro possa estar acelerando a marcha do país em direção a uma crise devastadora da saúde pública”, destacou The Guardian. O jornal americano The Washington Post foi além e publicou artigo contra o governo brasileiro. “Bolsonaro está colocando o Brasil em perigo e precisa sofrer impeachment”, disse.

Não fossem suficientes os problemas ligados à crise de saúde e a negação dos riscos da pandemia pelo governo, a imprensa internacional também destacou que o Brasil vivia uma situação pior do que a do resto do mundo por conta de problemas políticos com a demissão dos ministros da saúde, Luiz Henrique Mandetta, e da Justiça, Sergio Moro. Como resumiu a agência de notícias internacional Reuters, o país conseguiu a proeza de ter “uma crise política no meio de uma crise econômica durante a pandemia de coronavírus”.