A corrupção varrida para debaixo do tapete

Coluna publicada no site da revista Problemas Brasileiros em 20 de outubro de 2020 fala sobre o fim da Operação Lava Jato e o argumento do governo sobre o “fim da corrupção”.

“A ‘morte’ da Operação Lava Jato, anunciada em tom de brincadeira pelo presidente Jair Bolsonaro em outubro, não vai representar uma transformação positiva no conceito que o resto do mundo tem a respeito do Brasil. Em vez de representar a ausência de desvios e ilícitos no governo, como argumentou o presidente, o fim da maior ação contra a corrupção da história do País vai ser vista, do exterior, como a volta daquela imagem em que a impunidade domina.”

A Cara do Brasil – Um país decorativo ainda em 2020

Comentário no quadro A Cara do Brasil, da rádio CBN, em 11 de outubro de 2020 fala sobre a edição mais recente da pesquisa internacional Nation Brands Index. Este estudo de imagens internacionais de países mostra que o Brasil tem uma imagem positiva em termos de cultura e lazer, mas negativa em assuntos mais sérios, como política e economia.

É um resultado que reforça o que se vê há anos em pesquisas deste tipo, como discuti no artigo “Brazil is not (perceived as) a serious country”, em que analisei os resultados de 10 pesquisas de opinião globais sobre a imagem do Brasil.

Liderança queimada

Artigo publicado na coluna quinzenal da revista Problemas Brasileiros em 06/10/2020 fala sobre a mudança no papel do Brasil na política ambiental internacional.

O país que um dia foi uma das principais lideranças internacionais em políticas ambientais e ações contra o aquecimento global se tornou um pária. Em menos de dez anos, o Brasil passou de negociador-chave em acordos multilaterais e sede da Rio+20, um dos eventos mais importantes para as negociações de proteção da natureza mundial, a símbolo de descuido ambiental.

As notícias das últimas semanas aceleraram um processo que vinha ganhando força desde a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Primeiro foram os incêndios recordes no Pantanal, que se juntaram às imagens do fogo que destrói a Amazônia de forma acelerada desde 2019. Em seguida vieram as decisões do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que tiraram a proteção de manguezais e restingas.

Coluna na revista Problemas Brasileiros

A revista Problemas Brasileiros (PB) começou em setembro a publicar em seu site uma coluna quinzenal escrita por mim, além de um texto na edição bimestral impressa da PB.

Os artigos publicados na revista vão tratar de relações internacionais, política externa, o papel do Brasil no mundo e a imagem do país no exterior.

O texto de estreia tratou da queda do PBI do Brasil, e como isso já faz parte da percepção de que o país vive um constante turbilhão econômico.

Resenha de livro – Status and the Rise of Brazil

A edição mais recente da revista acadêmica Brasiliana – Journal for Brazilian Studies publicou uma resenha de livro escrita por mim. A obra trata do status do Brasil em Relações Internacionais.

Clique aqui para ver o texto completo na Brasiliana

Abaixo, um pequeno trecho traduzido da resenha:

“Embora já sejam conhecidas as ambições do Brasil por mais status , poucas pesquisas têm sido desenvolvidas como meio de compreender o resultado dessa busca pelo reconhecimento internacional e qual o nível de prestígio real do país. ‘Status and the Rise of Brazil’ é uma coletânea de capítulos que enfoca justamente a questão da posição do Brasil no mundo com uma abordagem teórica que atenta a essa ideia de status em RI. Os capítulos estipulam a conquista do status como um dos principais impulsionadores do alcance global do Brasil e oferecem uma discussão aprofundada sobre o assunto com diferentes abordagens, preenchendo muitas lacunas para colocar a recente bolsa de estudos do status em contato com o estudo do caso do Brasil.”

O Globo – Bolsonaro destrói caminhos para construção de prestígio do Brasil

Artigo publicado pelo jornal O Globo em 19 de agosto de 2020.

Apresenta alguns dados iniciais da pesquisa de doutorado pelo King’s College London em parceria com o IRI/USP. Indica como a percepção de caminhos para construção do prestígio internacional contrasta com o que o governo do Brasil tem feito de fato desde 2019.

Abaixo, alguns dos trechos do texto:

Ao se tornar epicentro da pandemia do novo coronavírus em meio a uma crise política e a uma postura presidencial de negação da ciência, o Brasil viu nos últimos meses sua imagem internacional atingir um dos piores patamares da história. Para além dos problemas internos, que pioram a reputação do país, o governo de Jair Bolsonaro parece interessado em destruir qualquer alternativa de caminho para a construção e ampliação do prestígio internacional do Brasil.

Esta avaliação é parte dos resultados da pesquisa de doutorado (ainda inédita) que desenvolvo no King’s College London (em parceria com a USP). Ela se baseia em entrevistas com 94 membros da comunidade de política externa dos cinco países que são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU — ou seja, as maiores potências do planeta.

Ao analisar o nível de reconhecimento da importância do Brasil para essas potências, é evidente que o país não tem muito poder militar ou econômico, e que soft power (poder de influência sem uso da força) tem alcance limitado. Assim, seria necessário e possível usar caminhos alternativos para ampliar o status do Brasil no mundo. Esses caminhos é que estão sendo destruídos pelo atual governo.”

A Cara do Brasil – Opiniões ‘distorcidas’ e ação

Comentário no quadro A Cara do Brasil, da rádio CBN, em 05/07/2020.

‘Mais do que reclamar de opiniões distorcidas, o governo tem que mostrar ação’. Comentário sobre fala de Bolsonaro em reunião do Mercosul. ‘As críticas são um reflexo do que vem acontecendo. Se o governo mudar de postura, isso pode ser alterado’.

O Brasil precisa melhorar sua imagem pela ação, não pelo discurso

O Brasil vê sua imagem internacional se derreter ao se tornar o epicentro da pandemia do novo coronavírus. Enquanto isso, o governo de Jair Bolsonaro –símbolo global de má gestão da crise de saúde– reclama da forma como o país está sendo retratado no exterior. 

Um dos pontos centrais para entender a percepção externa do Brasil, entretanto, está o fato de que a “marca” de um lugar é uma questão muito mais ligada a sua identidade do que simplesmente à imagem. “O que fazemos é o que determina aquilo que somos e, por consequência, aquilo que fazemos para sermos percebidos (de forma controlada ou não)”.

A citação foi tirada da edição em português do livro “Imaginative Communities: Cidades, Regiões E Países Admirados”, do pesquisador Robert Govers. A obra vai ser lançada agora no Brasil, com um capítulo escrito por Caio Esteves, que foca especificamente na questão dessa marca do país. 

Um dos problemas do Brasil, ele diz, é que “nossa identidade está diluída,  descuidada, soterrada pelas mazelas do dia a dia que, essas sim, invadem a narrativa.” 

Esteves é fundador da consultoria Places for Us e autor do livro “Place Branding”. Na entrevista abaixo ele fala sobre essa dificuldade do Brasil de se apropriar da sua própria identidade, de dominar a narrativa sobre o país. Tudo isso, ele explica, porque é preciso entender que não se trata de uma questão de imagem e de publicidade, mas de uma base forte dentro do país. 

“Precisamos interferir na origem da mensagem. Cada vez mais, vamos alterar a narrativa pela ação, pelo exemplo, e não pelo discurso ou pela quantidade de dinheiro que colocamos para divulgar um destino, uma ideia ou um posicionamento. Não tem nada a ver com publicidade e tem tudo a ver com política.

Leia abaixo a entrevista:

Daniel Buarque – No capítulo sobre o Brasil no livro “Imaginative Communities: Cidades, Regiões E Países Admirados”, você argumenta que place branding é sobre identidade, não sobre imagem. Mas também diz  que nossa identidade está diluída. Falta uma identidade ao país?

Caio Esteves – Não falta identidade. Falta o país se apropriar dessa identidade.

Não tenho dúvida de que há um problema sobre imagem, e falamos muito sobre isso no país. Há uma vertente mais tradicional que vê isso olhando apenas para a imagem percebida, buscando formas de medir isso e interferir nessa percepção internacional. E tem uma outra frente, na qual me incluo, que entende que essa imagem é consequência de uma identidade, e que antes de ser uma questão de percepção externa, é uma questão de percepção interna, de autocompreensão de uma comunidade, cidade, país, assim por diante.

O Brasil tem uma identidade. Ela está aí. Só que nós não nos apropriamos dela.

A gente até hoje vem usando um discurso de 1952, com o Zé Carioca, lembrando o Brasil através do carioca malandro. E a gente troca o Zé Carioca por algo pior que é um presidente incompetente que destrói o soft power do país completamente quando se torna uma das piores lideranças globais diante da pandemia.

A gente sempre teve um soft power relevante, mas a gente nunca se apropriou disso de uma forma que trouxesse os frutos que isso poderia trazer.

Daniel Buarque – Como é possível fazer isso?

Caio Esteves – Começa de uma compreensão de que identidade é essa. E só existe uma forma de fazer isso, que é envolvendo as pessoas. Isso não vai ser desenvolvido por uma agência ou uma consultoria. O que vale é a expertise de quem está trabalhando com isso, mas de forma bastante desprovida do egocentrismo presente nas grandes consultorias, entendendo que a comunidade é quem manda. Só tem um jeito de entender a identidade, que é envolver as pessoas que se relacionam com o lugar. E através de um processo franco, verdadeiro, autêntico, de colaboração de cocriação, se chegar em um caminho. O jeito de chegar a essa identidade não é alguém dizer qual é a identidade, é pelo contato com a comunidade.

Daniel Buarque – Em um artigo recente na Folha, Washington Olivetto diz que o produto Brasil precisa melhorar para poder promover o país no exterior

Caio Esteves – Eu discordo. Acho que estamos numa situação anterior a isso. A gente não está tentando vender nada. A gente não sabe nem o que a gente pode vender. É simples. O turismo federal fez, ele mesmo, o logotipo da marca Brasil. Tem coisa mais estúpida do que isso? Está tudo errado. Não temos uma oferta. Não temos uma percepção sólida. A gente cai ano após ano nos rankings internacionais de visita. Desperdiçamos Olimpíada e Copa do Mundo, os dois maiores eventos de alcance internacional, sem um projeto de país, de futuro. O mundo todo pensa no futuro. Até a Costa Rica tem plano para 2030, enquanto a gente pensa em que vai ser pego na próxima fase da Lava Jato, ou qual vai ser o próximo ministro a cair. A gente não consegue ter uma visão de longo prazo. E país sem visão de longo prazo não tem um projeto. E país sem projeto não tem o que vender. É um problema sistêmico, estrutural.

Daniel Buarque – Você falou sobre a importância de ouvir a comunidade para gerar essa autocompreensão do país, mas vivemos um momento de extrema polarização, em que o governo tem pouco apoio popular. Como é possível fazer isso nessa situação?

Caio Esteves – Esse diálogo deveria partir do pressuposto de entender elementos transversais a todos os lados dessa polarização. O mais óbvio deles, ainda que haja discordância sobre o caminho, é o desenvolvimento econômico. É visto como importante por todos os lados. O ponto de partida é estabelecer pontos convergentes entre as diferenças, para estabelecer um diálogo para ter um caminho com objetivo claro nesse sentido. Quanto melhor for a capacidade de fazer todo mundo compreender o que vai ser feito, melhor vai ser a capacidade de lidar com a diferença em um processo colaborativo, ainda que haja atritos.

Por outro lado, se o governo não é capaz de promover este tipo de discussão, a iniciativa privada pode encabeçar essa discussão. A potencialização de uma identidade de lugar está cada vez mais na mão da sociedade civil organizada e da iniciativa privada. Vejo cada vez mais o poder público como um facilitador, e não como agente da transformação.  

Daniel Buarque – Essa dificuldade de autoconhecimento pode ter relação com a preocupação constante do país com a sua imagem internacional e seu status no resto do mundo?

Caio Esteves – O interesse em saber o que os outros pensam é natural. O problema no caso do Brasil é que somos mero espectadores de uma narrativa alheia à nossa vontade. A gente hoje torce para falarem bem do Brasil, mas de fato o país não se apropria de algo que possa de fato promover uma mudança e interferir nessa narrativa. As pessoas confundem interferir na narrativa com alterar o storytelling. Não é mudar o texto. É mudar a origem do que gera a percepção dessa narrativa. A forma de fazer isso é trabalhar a realidade de outra forma para poder emitir mensagens que façam mais sentido diante do que está acontecendo. Isso é complicadíssimo, pois temos um governo que mais atrapalha do que ajuda. Precisamos interferir na origem da mensagem. Cada vez mais, vamos alterar a narrativa pela ação, pelo exemplo, e não pelo discurso ou pela quantidade de dinheiro que colocamos para divulgar um destino, uma ideia ou um posicionamento. Não tem nada a ver com publicidade e tem tudo a ver com política.

Daniel Buarque – Isso é ainda mais importante em um momento de pandemia como o atual…

Caio Esteves – Uma das evidência importantes mostradas pelo Covid-19 é a fragilidade dos líderes nas diferentes escalas. Vemos Nova Zelândia e Alemanha, por exemplo, saindo muito fortalecidos, enquanto países como o nosso vão para a lanterna, fazendo patacoada atrás de patacoada, virando motivo de piada internacional.

Daniel Buarque – Nesse sentido, acha que é possível separar a percepção sobre o líder da percepção sobre o país?

Caio Esteves – Elas estão interligadas, mas não são a mesma coisa. Uma nação é formada pelas pessoas que compões um país. A narrativa não é do governo. Não é uma marca de governo, ‘government branding’. É a marca de uma nação, ‘nation branding’, que pertence às pessoas do lugar, e não ao governo. E os governos deveriam ter um mínimo de alinhamento ao que a marca do lugar representa, independentemente da alternância de poder, que é saudável. 

Daniel Buarque – O capítulo na nova edição do livro começa falando dos impactos da pandemia, da desterritorialização, nas comunidades imaginativas. De que forma acha que essa quarentena global afeta a comunidade imaginativa do Brasil especificamente? 

Caio Esteves – A pandemia fez com que o mundo inteiro ficasse nivelado, abrangendo todos. Não estamos em uma situação pior porque o mundo inteiro está mal. Isso dá o privilégio de partirmos de uma posição em que todos estão mal. Precisamos discutir como queremos sair dessa situação. A desterritorialização é um fato que vem acontecendo há algum tempo e que a pandemia veio acelerar. Por conta disso, é cada vez mais importante ter identidade. Quando não houver mais território, o que vai sobrar é a percepção com base na identidade, na narrativa e na vocação dos lugares. Os países que têm uma ideia forte, que por sua vez geram uma narrativa forte, e uma percepção forte vão sofrer muito menos com a desterritorialização do que os países que precisam necessariamente do lugar físico para resolver isso. Estamos caminhando para uma situação na qual vamos vamos precisar de muito mais do que nossas belezas naturais, por exemplo, para atrair turistas, investimento, talento. O que está acontecendo no país agora vai impactar no futuro dele.