De líder débil, Brasil vira ‘o doente da América Latina’

O Brasil nunca foi exatamente uma potência hegemônica na América Latina. Por mais que seja reconhecidamente o maior, mais forte e mais rico da região, o país sempre teve uma relação complicada com o resto do continente, exercendo o que poderia no máximo ser chamado de liderança tênue, pouco significativa. Nada disso se compara ao momento atual, entretanto, quando a propagação do novo coronavírus na maior nação latino-americana faz com que o Brasil seja visto por seus vizinhos como uma ameaça à saúde pública regional. O Brasil virou “o doente da América Latina”. 

A descrição surge de uma analogia à expressão “the sick man of Europe”, tradicionalmente usada desde o século XIX para se referir a países da região que enfrentam graves crises econômicas. Em meio a uma pandemia, a ideia de “doente” ganha novos significados, e passa a representar uma nação que realmente enfrenta problemas de saúde… E que pode contaminar seus vizinhos.

Isso fica evidente na crescente cobertura que a imprensa estrangeira tem feito sobre os riscos que a falta de controle do vírus no Brasil representam para a região.

Segundo a Associated Press, “o aumento praticamente descontrolado de casos de Covid-19 no Brasil está gerando medo de que trabalhadores da construção civil, caminhoneiros e turistas do maior país da América Latina espalhem a doença para os países vizinhos que estão fazendo um trabalho melhor no controle do coronavírus”.

Uma reportagem publicada pela BBC News Brasil resumiu assim a situação: “Com mais de 11 mil mortes por coronavírus e a maior taxa de letalidade por covid-19 na América do Sul, o Brasil virou motivo de grande preocupação e temor nos países vizinhos — levando aliados do presidente Jair Bolsonaro a colocar a afinidade política de lado e adversários na região a intensificar suas críticas ao líder brasileiro.”

A resposta frágil do governo brasileiro à pandemia e o aumento exponencial do número de vítimas no país ameaçam enfraquecer ainda mais os laços do Brasil com a região. 

Isso está acontecendo apesar de o ministro das Relações Exteriores, em sua resposta raivosa a ex-chanceleres que criticaram a atuação do governo de Jair Bolsonaro na esfera internacional, ter alegado que “fizemos mais pela integração latino-americana do que volumes e volumes de discurseira integracionista”.

Este novo (pior) status do Brasil na região tende a ser problemático para negociações futuras e para a tentativa de integrar a América Latina e tentar ser o líder dessa parte do continente (o que traria mais status global). Ainda assim, como mencionado no início deste artigo, não significa que o Brasil já tenha tido algum tipo de hegemonia regional.

Parte disso vem de uma questão de identidade. Como o acadêmico britânico Leslie Bethell defendeu em um importante artigo de 2010, historicamente, o Brasil nunca foi considerado parte da América Latina –nem pelas elites brasileiras nem pelas elites do resto da região. E foi só depois do fim da Guerra Fria que ele começou a tentar ter um maior engajamento com o continente.

Bethell (que foi meu professor no King’s College London durante o mestrado) alega que intelectuais brasileiros tinham consciência do passado comum com o restante do continente, mas se viam separados pela geografia, pela história, pela economia, pela formação da sociedade e especialmente pelo idioma, pela cultura e pelas instituições políticas. Este distanciamento, portanto, pode ter dificultado na construção de uma liderança regional pelo Brasil.

Outra parte da dificuldade em assumir a liderança na região vem de uma postura historicamente complicada do Brasil em relação aos vizinhos. Desde pelo menos o início do século XIX, o Brasil assumiu uma postura de superioridade em relação ao restante da região, o que só ganhou força depois da independência.

Segundo Ron Seckinger, Dom Pedro I e os brasileiros acreditavam que o “Império” seria uma potência proeminente na região e tentavam projetar desde então uma imagem nacional de superioridade do Brasil por conta das suas instituições monárquicas, seu território, sua população e seus recursos naturais.  

Outro forte argumento sobre a dificuldade em ser a principal potência regional foi apresentado no ano seguinte pelo pesquisador argentino Andrès Malamud em um artigo acadêmico. Segundo ele, uma forte divergência entre as performances do Brasil em escala regional e global faziam com que o país se consolidasse na América Latina como “um líder sem seguidores”.  

Uma evidência disso é que os países da região não assumiram uma postura de defesa do Brasil em sua tentativa de assumir papéis importantes em instituições internacionais. Este é o  caso, por exemplo do fracasso da tentativa brasileira de tornar o país um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU (CSNU).

A dissertação de mestrado defendida por Mariana Bezerra Moraes de Araújo na Universidade do Minho, em Portugal, em 2011, também comprova isso. A pesquisadora analisou a cobertura que a mídia internacional fez da candidatura brasileira ao CSNU, e mostrou que jornais da Argentina e do México foram os mais ativos na rejeição a este papel de liderança do Brasil.

Não faltam evidências históricas e políticas dessa relação problemática do Brasil com a América Latina, portanto. Mas o fato de não ser reconhecido como líder não siginificava uma preocupação direta com a relação com o Brasil. O comportamento pacífico do país desde a Guerra do Paraguai pode ter ajudado a fazer com que o país não fosse visto como uma ameaça à segurança da região.  

A ideia de ameaça aparece agora, entretanto, em meio à pandemia, com o alerta em relação a um possível risco do país à saúde dos vizinhos. Incapaz de combater o novo coronavírus e de proteger sua própria população, o Brasil ganha uma imagem mais negativa, de “doente” na região.

Líder dos “avestruzes”, Brasil vira sinônimo de negação da crise em meio a devastação do coronavírus

A propagação do novo coronavírus se transformou em uma crise global de saúde desde o início de 2020. Enquanto países do mundo inteiro lidavam com uma pandemia que até o começo de maio havia deixado mais de 250 mil mortos, o Brasil vê sua reputação se afundar enquanto se consolida como símbolo de atuação equivocada no combate ao Covid-19.

A imagem mostrada pela cobertura da imprensa internacional no primeiro semestre é de um país que mergulha em crises e parece ignorar o problema enquanto a doença começava a devastar sua população.

Ilustração publicada pela revista The Economist

À medida que o país via crescer rapidamente o número de vítimas da doença, e o jornal americano The Washington Post publicava em sua capa uma foto de centenas de covas sendo cavadas em um cemitério de São Paulo, o Brasil virou o líder da “Aliança do Avestruz”, segundo uma reportagem publicada pelo jornal econômico Financial Times. 

O termo foi criado pelo professor Oliver Stuenkel, da FGV. É uma referência ao mito de que avestruzes enfiam a cabeça na areia para se esconder de problemas e fugir do perigo. O país finge que não há nada de errado, e o governo de Jair Bolsonaro passou a ser visto como o principal negacionista da crise global de saúde causada pela pandemia.

Enquanto a maioria dos líderes do mundo tomou ações drásticas para lutar contra a propagação do coronavírus, dizia a reportagem, Bolsonaro continuava minimizando a ameaça à saúde dos brasileiros.

O editorial da revista científica The Lancet, uma das mais importantes na área médica, resumiu a reputação do governo brasileiro nessa semana ao chamar Bolsonaro de “a maior ameaça à resposta do Brasil à Covid-19”. A publicação sugere que ele mude sua conduta ou seja “o próximo a sair”.

Um estudo de imagem e reputação do país realizado pelo escritório de consultoria Curado & associados em sete veículos da imprensa internacional comprovou essa imagem negativa da gestão da pandemia no Brasil.

A mídia estrangeira deu grande visibilidade a declarações polêmicas do presidente e à falha na entrega de soluções para a crise. Além disso, houve registro internacional sobre o crescimento da insatisfação da população, com uma série de panelaços contra o governo em várias partes do país. 

Isso tudo levou Bolsonaro a ganhar destaque na mídia internacional como o líder mais ineficiente do mundo no combate ao novo coronavírus. A avaliação foi feita pelo presidente da agência de risco Eurasia Group, Ian Bremmer

“O movimento de negação de coronavírus oficialmente tem um líder e é o presidente brasileiro Jair Bolsonaro”, resumiu uma reportagem da revista americana The Atlantic. “Ele descreveu a doença como uma ‘gripezinha’, um insignificante ‘resfriado’. Ele acusou a mídia de fabricar ‘histeria’”, disse a publicação. 

Essa imagem negativa se espalhou nos principais veículos da imprensa internacional. “Nenhum líder mundial foi mais ativo em subestimar a ameaça do coronavírus do que o presidente brasileiro”, criticou a revista The New Yorker. “Especialistas médicos temem que Bolsonaro possa estar acelerando a marcha do país em direção a uma crise devastadora da saúde pública”, destacou The Guardian. O jornal americano The Washington Post foi além e publicou artigo contra o governo brasileiro. “Bolsonaro está colocando o Brasil em perigo e precisa sofrer impeachment”, disse.

Não fossem suficientes os problemas ligados à crise de saúde e a negação dos riscos da pandemia pelo governo, a imprensa internacional também destacou que o Brasil vivia uma situação pior do que a do resto do mundo por conta de problemas políticos com a demissão dos ministros da saúde, Luiz Henrique Mandetta, e da Justiça, Sergio Moro. Como resumiu a agência de notícias internacional Reuters, o país conseguiu a proeza de ter “uma crise política no meio de uma crise econômica durante a pandemia de coronavírus”.