Um Brasil – Covid-19 é uma catástrofe política, diz Richard Horton

A pandemia causada pelo covid-19 ultrapassa o tema da saúde ao escancarar as desigualdades das sociedades que deixam as pessoas vulneráveis à doença, além do despreparo dos governos para lidar com a situação. Na entrevista concedida ao canal UM BRASIL – uma realização da FecomercioSP –, o editor-chefe da revista científica sobre medicina The Lancet, Richard Horton, compara esta experiência a um espelho.

“Estamos ainda nos primórdios desta epidemia e podemos ver milhares de pessoas em praias, mas, quando houver um ressurgimento da infecção e mais pessoas morrerem, será uma dura lição a ser aprendida. Acredito que esta pandemia seja uma provocação moral para cada um de nós, para cada país e para o mundo. É como um espelho que foi posto diante de nós, e pudemos ver o nosso reflexo nele bem claramente pela primeira vez em muito tempo”, diz Horton.

Bolsonaro coloca o Brasil na campanha para tentar reeleger Trump

O segundo artigo publicado na coluna quinzenal da revista Problemas Brasileiros fala da decisão brasileira de agir em apoio à reeleição de Donald Trump no pleito americano.

“Jair Bolsonaro precisa de Donald Trump. A relação construída entre o presidente brasileiro e o seu ídolo norte-americano criou uma situação de dependência que vai além da tradicional institucionalidade diplomática entre Estados – e entra no terreno do personalismo dos seus líderes. Isso está transbordando para o processo da eleição nos Estados Unidos, na qual o Brasil também abandona a institucionalidade, adotando uma política arriscada que pode ir contra os interesses do País.”

Coluna na revista Problemas Brasileiros

A revista Problemas Brasileiros (PB) começou em setembro a publicar em seu site uma coluna quinzenal escrita por mim, além de um texto na edição bimestral impressa da PB.

Os artigos publicados na revista vão tratar de relações internacionais, política externa, o papel do Brasil no mundo e a imagem do país no exterior.

O texto de estreia tratou da queda do PBI do Brasil, e como isso já faz parte da percepção de que o país vive um constante turbilhão econômico.

A Cara do Brasil – País sai de cima do muro, mas perde protagonismo

Comentário no quadro A Cara do Brasil, da rádio CBN, em 13 de setembro de 2020. Parte da análise apresentada no artigo acadêmico que fala sobre a percepção de que o Brasil fica “em cima do muro”, e mostra que com o atual governo isso parece ter mudado. O país se alinhou aos EUA, saiu de cima do muro, mas também abriu mão do seu protagonismo internacional.

Um país em cima do muro

A Revista Brasileira de Política Internacional (RBPI) publicou em sua edição mais recente um artigo acadêmico em que apresento parte dos dados da minha pesquisa de doutorado pelo Brazil Institute do King’s College London, discuto a arcabouço teórico usado na minha tese e apresento parte da metodologia usada na análise de dados.

A ideia central do artigo é entender o caráter intersubjetivo do status em relações internacionais e mostrar que a percepção do prestígio do Brasil a partir da ótica britânica é de um país que está sempre em cima do muro, que não tem uma agenda de política externa clara e que se equivoca na interpretação do lugar que ocupa na hierarquia global e do seu papel no mundo.

Clique aqui para ver o artigo completo

Assista abaixo a um vídeo em que o artigo é apresentado

O trabalho parte da ideia de que o Brasil historicamente sempre buscou promover sua imagem internacional e conquistar um status de país importante nas relações exteriores, a exemplo da tentativa de se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU –mas que isso não parece alinhado ao que países com mais força global esperam do Brasil. 

O problema é que o status do país e o papel que ele desempenha do mundo depende do que as outras nações pensam sobre o país de que se trata. Então se torna fundamental entender essa percepção externa para saber mais sobre esse status.

A revista Mundorama publicou uma entrevista sobre as contribuições acadêmicas do estudo

Este artigo busca trazer duas contribuições importantes para a pesquisa acadêmica de relações internacionais e sobre o Brasil.

Por um lado, faz uma avaliação do status do Brasil a partir do ponto de vista de observadores estrangeiros, do Reino Unido. Isso traz à luz um entendimento sobre o que se pensa de fora a respeito do que o país está tentando fazer em sua política internacional.

Uma segunda contribuição acadêmica tem um enfoque mais teórico e metodológico. O artigo foi construído sobre a análise temática reflexiva de seis entrevistas com diplomatas britânicos que serviram no Brasil, e assim tem um enfoque na análise qualitativa do caráter intersubjetivo de status.

Isso é importante porque os principais estudos sobre status desde Max Weber apontam para o fato de que status sempre depende do que um ator faz e de como um ou mais atores externos interpretam o primeiro. Portanto o status de uma nação depende dessa percepção externa de todos os atores externos.

Só que até o momento os principais estudos sobre status em relações internacionais ou avaliam apenas as estratégias usadas por países para tentar melhorar seu prestígio, ou usam abordagens quantitativas baseadas em números de embaixadas entre os estados. 

O meu artigo busca preencher esta lacuna no conhecimento sobre status em relações internacionais ao usar uma abordagem qualitativa e com foco na intersubjetividade.

Os dados das entrevistas sobre a percepção externa do Brasil também são muito interessantes e servem para ajudar a preencher a lacuna no entendimento sobre o status do Brasil. Eles mostram que por mais que o Brasil tente melhorar seu prestígio há muitas décadas, não há um entendimento muito claro sobre o status internacional do país.

A percepção dos diplomatas britânicos é de que o Brasil é um país que tem muito potencial, mas que não alcança tudo o que pode em relações internacionais, e parte disso é por falta de uma estratégia clara para promover os interesses do país. Essa falta de estratégia está associada a essa ideia de que o Brasil está sempre em cima do muro –on the fence, como diz o título do artigo. O Brasil frequentemente alega neutralidade, e com isso acaba não se alinhando a nenhum lado em disputas internacionais, parecendo aos britânicos não querer se comprometer.. 

A partir dessa percepção britânica, portanto, essa imagem de ambivalência política do Brasil em relações globais pode ser um empecilho na busca por mais status internacional para o país.

É claro que essa avaliação do caráter intersubjetivo de status tem suas próprias limitações, Mas este é um primeiro passo importante para conhecer mais sobre esta percepção externa sobre o lugar e o papel do Brasil no mundo.

Resenha de livro – Status and the Rise of Brazil

A edição mais recente da revista acadêmica Brasiliana – Journal for Brazilian Studies publicou uma resenha de livro escrita por mim. A obra trata do status do Brasil em Relações Internacionais.

Clique aqui para ver o texto completo na Brasiliana

Abaixo, um pequeno trecho traduzido da resenha:

“Embora já sejam conhecidas as ambições do Brasil por mais status , poucas pesquisas têm sido desenvolvidas como meio de compreender o resultado dessa busca pelo reconhecimento internacional e qual o nível de prestígio real do país. ‘Status and the Rise of Brazil’ é uma coletânea de capítulos que enfoca justamente a questão da posição do Brasil no mundo com uma abordagem teórica que atenta a essa ideia de status em RI. Os capítulos estipulam a conquista do status como um dos principais impulsionadores do alcance global do Brasil e oferecem uma discussão aprofundada sobre o assunto com diferentes abordagens, preenchendo muitas lacunas para colocar a recente bolsa de estudos do status em contato com o estudo do caso do Brasil.”

David Graber em entrevista de 2011

O antropólogo, economista e ativista anarquista David Graeber morreu nesta semana. Autor de livros como “Bullshit Jobs”, ele foi participante ativo do movimento antiglobalização na virada do milênio e um dos idealizadores do Occupy Wall Street.

Entrevistei Graeber antes de ele ganhar destaque por sua mobilização política, em 2011. Falamos sobre o então recém-lançado livro “Dívida”, para uma reportagem do G1 (parte de uma série sobre pessoas endividadas no Brasil”.

O link para a entrevista e alguns dos trechos mais interessantes seguem abaixo:

Dívidas surgiram antes do dinheiro, diz antropólogo americano

“Na história da humanidade, a maior parte das pessoas foi endividada, pelo menos em algum ponto de sua vida. O aumento do endividamento é uma repetição da história”

“O dinheiro não surgiu na forma impessoal e fria, como metal e com valor intrínseco. Ele originalmente aparece como forma de medida, uma abstração, mas também como uma relação de dívida e obrigação entre seres humanos”

“Na verdade, tudo o que consideramos comportamento natural de mercado é um efeito colateral de guerras e confrontos entre as pessoas. Isso gerou a escravidão e a ideia de dívida social entre vencedores e perdedores. Os mercados de dinheiro sempre tiveram relação com campanhas militares. As pessoas preferem não olhar isso de forma direta, mas é uma parte essencial do capitalismo”

“Filosoficamente, pode-se dizer que não há muita diferença entre ‘se alugar’ como trabalhador ou ‘se vender’ como escravo”.

Neste sentido, pode-se dizer que as pessoas são escravas no mundo atual. “Isso, sim, pode ser eliminado. O sistema em que vivemos é que precisa ser moldado por instituições que impeçam que a maior parte das pessoas viva como se fossem escravas de tantas obrigações sociais.”

“Na Guerra Fria, falava-se em um conflito entre comunismo e capitalismo, mas o comunismo que existiu nunca se afastou do dinheiro, dos salários, e por isso hoje sabemos que nunca houve o comunismo de verdade, mas um capitalismo de estado.”

“O problema é que não há muita saída. Quando as pessoas têm poder sobre você, o correto seria questionar, tentar descobrir por que existe essa dívida, mas no momento em que isso acontece, já se está usando a linguagem da dívida, e fica difícil escapar disso. Estamos presos a isso milhares de anos mais tarde. Desde a religião, em que devemos nossa vida a Deus, até o pagamento de impostos ao Estado.”