A Cara do Brasil – País sai de cima do muro, mas perde protagonismo

Comentário no quadro A Cara do Brasil, da rádio CBN, em 13 de setembro de 2020. Parte da análise apresentada no artigo acadêmico que fala sobre a percepção de que o Brasil fica “em cima do muro”, e mostra que com o atual governo isso parece ter mudado. O país se alinhou aos EUA, saiu de cima do muro, mas também abriu mão do seu protagonismo internacional.

Um país em cima do muro

A Revista Brasileira de Política Internacional (RBPI) publicou em sua edição mais recente um artigo acadêmico em que apresento parte dos dados da minha pesquisa de doutorado pelo Brazil Institute do King’s College London, discuto a arcabouço teórico usado na minha tese e apresento parte da metodologia usada na análise de dados.

A ideia central do artigo é entender o caráter intersubjetivo do status em relações internacionais e mostrar que a percepção do prestígio do Brasil a partir da ótica britânica é de um país que está sempre em cima do muro, que não tem uma agenda de política externa clara e que se equivoca na interpretação do lugar que ocupa na hierarquia global e do seu papel no mundo.

Clique aqui para ver o artigo completo

Assista abaixo a um vídeo em que o artigo é apresentado

O trabalho parte da ideia de que o Brasil historicamente sempre buscou promover sua imagem internacional e conquistar um status de país importante nas relações exteriores, a exemplo da tentativa de se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU –mas que isso não parece alinhado ao que países com mais força global esperam do Brasil. 

O problema é que o status do país e o papel que ele desempenha do mundo depende do que as outras nações pensam sobre o país de que se trata. Então se torna fundamental entender essa percepção externa para saber mais sobre esse status.

A revista Mundorama publicou uma entrevista sobre as contribuições acadêmicas do estudo

Este artigo busca trazer duas contribuições importantes para a pesquisa acadêmica de relações internacionais e sobre o Brasil.

Por um lado, faz uma avaliação do status do Brasil a partir do ponto de vista de observadores estrangeiros, do Reino Unido. Isso traz à luz um entendimento sobre o que se pensa de fora a respeito do que o país está tentando fazer em sua política internacional.

Uma segunda contribuição acadêmica tem um enfoque mais teórico e metodológico. O artigo foi construído sobre a análise temática reflexiva de seis entrevistas com diplomatas britânicos que serviram no Brasil, e assim tem um enfoque na análise qualitativa do caráter intersubjetivo de status.

Isso é importante porque os principais estudos sobre status desde Max Weber apontam para o fato de que status sempre depende do que um ator faz e de como um ou mais atores externos interpretam o primeiro. Portanto o status de uma nação depende dessa percepção externa de todos os atores externos.

Só que até o momento os principais estudos sobre status em relações internacionais ou avaliam apenas as estratégias usadas por países para tentar melhorar seu prestígio, ou usam abordagens quantitativas baseadas em números de embaixadas entre os estados. 

O meu artigo busca preencher esta lacuna no conhecimento sobre status em relações internacionais ao usar uma abordagem qualitativa e com foco na intersubjetividade.

Os dados das entrevistas sobre a percepção externa do Brasil também são muito interessantes e servem para ajudar a preencher a lacuna no entendimento sobre o status do Brasil. Eles mostram que por mais que o Brasil tente melhorar seu prestígio há muitas décadas, não há um entendimento muito claro sobre o status internacional do país.

A percepção dos diplomatas britânicos é de que o Brasil é um país que tem muito potencial, mas que não alcança tudo o que pode em relações internacionais, e parte disso é por falta de uma estratégia clara para promover os interesses do país. Essa falta de estratégia está associada a essa ideia de que o Brasil está sempre em cima do muro –on the fence, como diz o título do artigo. O Brasil frequentemente alega neutralidade, e com isso acaba não se alinhando a nenhum lado em disputas internacionais, parecendo aos britânicos não querer se comprometer.. 

A partir dessa percepção britânica, portanto, essa imagem de ambivalência política do Brasil em relações globais pode ser um empecilho na busca por mais status internacional para o país.

É claro que essa avaliação do caráter intersubjetivo de status tem suas próprias limitações, Mas este é um primeiro passo importante para conhecer mais sobre esta percepção externa sobre o lugar e o papel do Brasil no mundo.

Resenha de livro – Status and the Rise of Brazil

A edição mais recente da revista acadêmica Brasiliana – Journal for Brazilian Studies publicou uma resenha de livro escrita por mim. A obra trata do status do Brasil em Relações Internacionais.

Clique aqui para ver o texto completo na Brasiliana

Abaixo, um pequeno trecho traduzido da resenha:

“Embora já sejam conhecidas as ambições do Brasil por mais status , poucas pesquisas têm sido desenvolvidas como meio de compreender o resultado dessa busca pelo reconhecimento internacional e qual o nível de prestígio real do país. ‘Status and the Rise of Brazil’ é uma coletânea de capítulos que enfoca justamente a questão da posição do Brasil no mundo com uma abordagem teórica que atenta a essa ideia de status em RI. Os capítulos estipulam a conquista do status como um dos principais impulsionadores do alcance global do Brasil e oferecem uma discussão aprofundada sobre o assunto com diferentes abordagens, preenchendo muitas lacunas para colocar a recente bolsa de estudos do status em contato com o estudo do caso do Brasil.”

David Graber em entrevista de 2011

O antropólogo, economista e ativista anarquista David Graeber morreu nesta semana. Autor de livros como “Bullshit Jobs”, ele foi participante ativo do movimento antiglobalização na virada do milênio e um dos idealizadores do Occupy Wall Street.

Entrevistei Graeber antes de ele ganhar destaque por sua mobilização política, em 2011. Falamos sobre o então recém-lançado livro “Dívida”, para uma reportagem do G1 (parte de uma série sobre pessoas endividadas no Brasil”.

O link para a entrevista e alguns dos trechos mais interessantes seguem abaixo:

Dívidas surgiram antes do dinheiro, diz antropólogo americano

“Na história da humanidade, a maior parte das pessoas foi endividada, pelo menos em algum ponto de sua vida. O aumento do endividamento é uma repetição da história”

“O dinheiro não surgiu na forma impessoal e fria, como metal e com valor intrínseco. Ele originalmente aparece como forma de medida, uma abstração, mas também como uma relação de dívida e obrigação entre seres humanos”

“Na verdade, tudo o que consideramos comportamento natural de mercado é um efeito colateral de guerras e confrontos entre as pessoas. Isso gerou a escravidão e a ideia de dívida social entre vencedores e perdedores. Os mercados de dinheiro sempre tiveram relação com campanhas militares. As pessoas preferem não olhar isso de forma direta, mas é uma parte essencial do capitalismo”

“Filosoficamente, pode-se dizer que não há muita diferença entre ‘se alugar’ como trabalhador ou ‘se vender’ como escravo”.

Neste sentido, pode-se dizer que as pessoas são escravas no mundo atual. “Isso, sim, pode ser eliminado. O sistema em que vivemos é que precisa ser moldado por instituições que impeçam que a maior parte das pessoas viva como se fossem escravas de tantas obrigações sociais.”

“Na Guerra Fria, falava-se em um conflito entre comunismo e capitalismo, mas o comunismo que existiu nunca se afastou do dinheiro, dos salários, e por isso hoje sabemos que nunca houve o comunismo de verdade, mas um capitalismo de estado.”

“O problema é que não há muita saída. Quando as pessoas têm poder sobre você, o correto seria questionar, tentar descobrir por que existe essa dívida, mas no momento em que isso acontece, já se está usando a linguagem da dívida, e fica difícil escapar disso. Estamos presos a isso milhares de anos mais tarde. Desde a religião, em que devemos nossa vida a Deus, até o pagamento de impostos ao Estado.”

O Globo – Bolsonaro destrói caminhos para construção de prestígio do Brasil

Artigo publicado pelo jornal O Globo em 19 de agosto de 2020.

Apresenta alguns dados iniciais da pesquisa de doutorado pelo King’s College London em parceria com o IRI/USP. Indica como a percepção de caminhos para construção do prestígio internacional contrasta com o que o governo do Brasil tem feito de fato desde 2019.

Abaixo, alguns dos trechos do texto:

Ao se tornar epicentro da pandemia do novo coronavírus em meio a uma crise política e a uma postura presidencial de negação da ciência, o Brasil viu nos últimos meses sua imagem internacional atingir um dos piores patamares da história. Para além dos problemas internos, que pioram a reputação do país, o governo de Jair Bolsonaro parece interessado em destruir qualquer alternativa de caminho para a construção e ampliação do prestígio internacional do Brasil.

Esta avaliação é parte dos resultados da pesquisa de doutorado (ainda inédita) que desenvolvo no King’s College London (em parceria com a USP). Ela se baseia em entrevistas com 94 membros da comunidade de política externa dos cinco países que são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU — ou seja, as maiores potências do planeta.

Ao analisar o nível de reconhecimento da importância do Brasil para essas potências, é evidente que o país não tem muito poder militar ou econômico, e que soft power (poder de influência sem uso da força) tem alcance limitado. Assim, seria necessário e possível usar caminhos alternativos para ampliar o status do Brasil no mundo. Esses caminhos é que estão sendo destruídos pelo atual governo.”

A Cara do Brasil – O exemplo de o que não fazer em uma pandemia

Comentário do quadro A Cara do Brasil, na rádio CBN, em 09 de agosto de 2020.

Analisa a chegada do Brasil à marca de 100 mil mortos pelo novo coronavírus e como o país se consolidou como um exemplo de o que não fazer em uma crise, um símbolo de ações equivocadas no combate à pandemia. Mostra que o país chegou à triste marca por conta de erros na condução de uma política de saúde coordenada, e que atingiu o altíssimo número de vítimas sem uma perspectiva de conseguir reduzir o imhttps://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/311226/no-combate-pandemia-o-brasil-virou-um-exemplo-nao-.htmpacto do covid-19.

Um Brasil – Pandemia e nacionalismo

Entrevista em vídeo com o pesquisador César Jiménez-Martínez.

“A expectativa é que o mundo pós-pandemia seja mais nacionalista como um reflexo do padrão adotado durante o período de combate ao covid-19. Essa fase está sendo marcada mais pela competição do que pela cooperação internacional. O assunto foi debatido no UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, por César Jiménez Martínez, professor do Global Media and Communications at Cardiff University School of Journalism, Media and Culture.”

“O [novo] coronavírus é uma crise global, mundial, mas a resposta da crise é de maioria nacional, de governo nacional. Acho que o interessante da crise atual é mostrar a importância da ideia de nação nas nossas vidas. É provável que o mundo pós-pandemia seja muito mais fechado, mais nacionalista”, diz.

Martinez destaca, entretanto, que o nacionalismo é uma forma de discurso que pode ter diferentes ideologias, mais global e aberto ao mundo ou mais protecionista. O especialista também fala ao jornalista Daniel Buarque sobre o papel da mídia na pandemia, além de traçar um paralelo entre a imagem negativa do Brasil no cenário internacional, no momento, com os protestos que ocorreram em 2013.

A Cara do Brasil – A ascensão da diplomacia científica

Comentário do quadro A Cara do Brasil, da rádio CBN, em 02 de agosto de 2020, tratou da situação científica mundial no atual momento de pandemia. A integração de esforços acelera a descoberta de uma vacina contra a Covid-19. em contraste à ação dos EUA, que tenta comprar estoques inteiros de vacinas, Daniel cita o ideal colaborativo entre os cientistas.